Isabela mora no mesmo prédio desde 2016. Conhecia os vizinhos de rosto, sabia o sobrenome de dois ou três. Mas foi em 2021, durante o segundo ano mais tenso da pandemia, que ela finalmente aprendeu o nome de todo mundo do seu andar. Não porque quisesse — porque não tinha como não saber.
"O apartamento do 4B tem um cachorro que late exatamente às onze da manhã. A família do 4D cozinha com alho todo dia às seis da tarde. A 4A faz reuniões de trabalho com o volume no máximo." Ela ri. "Eu nunca tinha prestado atenção nisso. Passava o dia fora."
A experiência de Isabela não é exceção. Pesquisadores que estudam convivência urbana notaram uma transformação nas dinâmicas de vizinhança depois do isolamento. Algumas positivas, muitas tensas, e todas ainda se reorganizando.
O barulho que sempre existiu
Um dos primeiros efeitos registrados foi o aumento de reclamações em condomínios residenciais. Segundo o Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi-SP), as ocorrências de conflito entre moradores cresceram 34% entre 2020 e 2022, comparadas ao período anterior. A maior parte envolvia barulho — reuniões de trabalho, filhos em aula on-line, música, animais domésticos.
Mas o dado esconde algo mais sutil. O barulho não aumentou. O que aumentou foi a exposição a ele.
"As pessoas sempre fizeram ruído. A diferença é que antes elas saíam de manhã e voltavam à noite. O conflito era impossível porque não havia contato suficiente."
Quem diz isso é o sociólogo urbano Felipe Andrade, da USP, que acompanhou grupos de whatsapp de condomínios durante a pandemia como parte de uma pesquisa sobre microconflitos urbanos. O que ele encontrou foi uma escalada de tensões — e também, de forma menos esperada, de solidariedade.
Quando o conflito virou organização
Em alguns prédios, os desentendimentos levaram à criação de comitês de convivência informais. Em outros, geraram acordos coletivos sobre horários de barulho, uso de elevadores, regras para pets. Andrade documenta pelo menos 17 casos em São Paulo e Belo Horizonte onde grupos de WhatsApp criados para resolver conflitos viraram redes de ajuda mútua durante a pandemia.
"Tem um prédio no Ipiranga onde os moradores passaram de se odiar para se ajudar com compras durante o pico da pandemia. Tudo começou num conflito de barulho." Ele pausa. "Não é a regra, mas acontece mais do que se imagina."
O fenômeno tem nuance de classe. Em prédios de apartamentos menores, com paredes mais finas e áreas comuns mais disputadas, os conflitos foram mais intensos. Nas classes mais altas, com espaço suficiente para isolamento dentro do próprio apartamento, a pandemia passou mais distante das relações de vizinhança.
O que ficou depois
Três anos após o pico do isolamento, a dinâmica mudou de novo. Parte das pessoas voltou à rotina pré-pandêmica — saindo cedo, voltando tarde, tratando o prédio como dormitório. Mas uma parcela considerável manteve hábitos que nasceram na pandemia: home office parcial, cozinhar mais em casa, conhecer os vizinhos pelo nome.
Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, divulgada em 2024, mostrou que 41% dos brasileiros que adotaram home office parcial afirmam ter aumentado sua interação com vizinhos nos últimos dois anos. Curiosamente, esse grupo também reporta maior sensação de pertencimento ao bairro onde mora.
Isabela ainda mora no mesmo andar. O cachorro do 4B continua latindo às onze. Mas agora ela sabe que a dona se chama Dona Marta, que tem 72 anos e que o cachorro se chama Broto. Quando a Dona Marta precisou de ajuda com compras no ano passado, Isabela foi a primeira a oferecer.
"Não sei se foi a pandemia que melhorou as pessoas ou que simplesmente forçou a gente a existir no mesmo lugar ao mesmo tempo", ela diz. "Mas acho que alguma coisa mudou. Não sei se para sempre."