Larissa tem 31 anos e trabalha numa empresa de tecnologia. Nos últimos dois anos, ela passou por três ciclos que descreveria assim: três semanas de alta produtividade, seguidas de um colapso silencioso de alguns dias, seguidas de uma recuperação precária, seguidas de três semanas de alta produtividade de novo. "É como um loop. Funciono, quebro, conserto, repito."
Ela só procurou ajuda quando um médico mencionou burnout numa consulta de rotina — não porque ela foi por isso. Ela foi por dores musculares.
Esse padrão — busca de ajuda por sintoma físico, diagnóstico de esgotamento — aparece com frequência nos relatos que coletamos para esta reportagem. E aparece com frequência também nos dados.
O que os números mostram
O Ministério da Saúde registrou aumento de 38% nos afastamentos por transtornos relacionados ao trabalho entre 2022 e 2024. A faixa etária com maior crescimento foi a de 28 a 35 anos. O burnout, síndrome reconhecida pela OMS desde 2019 como fenômeno ocupacional, aparece entre os diagnósticos mais frequentes nesse grupo.
Mas os números capturam apenas quem chegou a pedir afastamento. A maioria não chega. Continua trabalhando com sintomas que minimiza. E nesse ponto a questão deixa de ser só médica.
O problema cultural do cansaço como produtividade
Existe no ambiente de trabalho brasileiro — e especialmente em setores como tecnologia, finanças e comunicação — uma cultura que trata exaustão como sinal de comprometimento. "Estou destruído" dito com orgulho. "Mal dormi essa semana" como prova de dedicação. "Trabalhei no fim de semana" como diferencial.
"A gente não só aceita o esgotamento — a gente o usa como moeda social. Mostrar que está exausto é mostrar que está produzindo. É uma confusão perigosa."
Quem diz isso é a psicóloga organizacional Fernanda Mello, que atende profissionais de tecnologia em São Paulo. Ela observa que muitos dos seus pacientes mais jovens chegam com dificuldade de identificar o próprio esgotamento precisamente porque internalizaram que cansaço é normal — ou até desejável.
O que muda quando você adoece aos 30 e não aos 50
Há uma diferença geracional relevante. O burnout em adultos de 50 ou 60 anos costuma acontecer depois de décadas de acumulação. O que está ocorrendo hoje é diferente: pessoas que têm quinze anos de carreira pela frente já estão no limite antes dos 35.
As consequências a longo prazo não estão totalmente mapeadas, mas há indicações preocupantes. Pesquisas da Universidade de Harvard mostram associação entre burnout precoce e maior risco de ansiedade crônica, síndrome do pânico e dificuldade de retorno ao trabalho em alta performance.
Larissa, que abriu a reportagem, está em terapia há seis meses. Diz que o processo foi útil, mas não suficiente. "O problema não sou só eu. O problema é o ambiente que acha que isso é normal. E eu trabalho nesse ambiente todo dia."
O loop continua.